terça-feira, 7 de maio de 2013

Gravando: Circula Saraus grava lançamento de "Memórias da Noite revisitada & outros poemas", de Abelardo Rodrigues




O nosso programa de Saraus & circuito literário, o "Circula Saraus", que rola toda segunda-feira, as 20hs, esta semana vai gravar um lançamento mais que especial: "Memórias da Noite revisitada & outros poemas", do escritor Abelardo Rodrigues.


Esforço de uma parceria coletiva, o escritor e poeta negro Abelardo Rodrigues vai apresentar seu Memória da Noite, revisitada & outros poemas, no próximo dia 10 de maio, sexta-feira, às 19hs, na Ação Educativa (R. General Jardim, nº 660, Vila Buarque-Centro, SP). Lançado originalmente no conturbado final da década de setenta, o livro é uma obra significativa na história intelectual do negro paulistano que à época teve repercussão e causou impacto em toda uma geração literária afrocentrada. A nova edição apresenta, 35 anos depois, os textos e poemas da primeira edição revisitados, e também poemas inéditos.

Na noite de lançamento, além da seção de autógrafos, teremos leituras de poemas do autor, exposição, projeção de imagens e a apresentação da cantora Denna Hill e do músico Henrique Elói.

Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista (SP), em 1952, e mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. Publicou Memória da Noite (Ed. do Autor, 1978). Foi co-fundador da antologia Cadernos Negros, junto com Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cuti e Jorge Lescano. Tem participação na premiada antologia Axé – Antologia Contemporânea da poesia negra (Org. Paulo Colina, 1982), O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo, 1987) e tem diversos textos publicados em revistas norte – americanas e alemãs; é um poeta muito representativo na cena da literatura negro brasileira, e sem dúvida, figura como escritor essencial para a literatura produzida pela coletividade negra paulistana.

Em conversa com o coordenador editorial da obra Marciano Ventura, Abelardo fala um pouco sobre diversos assuntos, confira aqui:

TRAJETÓRIA


"Nessa época, existia uma grande efervescência cultural: a poesia marginal, a geração mimeógrafo, livros sendo vendidos de mão em mão, tudo muito artesanal... E à margem do estabelecido, contestações do momento político que estávamos vivendo e, que estava se esvaindo. Tudo isso somado aos encontros literários com escritores negros, Paulo Colina, Cuti, o argentino Mario Jorge Lhescano, contista e tradutor de poetas cubanos, casado com uma brasileira negra e grande conhecedor da literatura de seu país de origem. Fundamos, ou criamos o Grupo Quilombhoje com a proposta de mudanças literárias, de contestar a literatura na qual nós, negros, éramos os excluídos, éramos os indesejados, invisibilizados. As coisas aconteciam rapidamente. E a poesia fluía com grande intensidade, influenciada pelas lutas de libertação dos países africanos de língua portuguesa, Angola e Moçambique, somados à nossa dor pelo sofrimento dos sul-africanos vítimas do Apartheid.
Muitas rodas de poemas, leituras dos poetas negros Áimé Cesáire, Agostinho Neto, meu poeta amado, Arlindo Barbeitos autor de Angola Angolê Angolema, que tive o prazer de conhecer quando ele esteve em São Paulo. E assim, fui caminhando. Depois, o grupo se desfez, ainda houve o Triunvirato, quizilas literárias mil, que fizeram essa literatura negra paulistana crescer ainda mais. O resto é história. E o tempo nos absolveu, a todos."




A POESIA

"A poesia brotou em mim acordada por esses sentimentos do mundo, como uma pedra no meio do meu caminho. Pedra, que quanto mais eu tento removê-la, mais ela se fixa em minha alma, um vício, um ofício do meu ser. É difícil dizer quais são os "aspectos decisivos" para minha criação... A vida como ela é, como foi e está sendo para mim. Todo o meu olhar indagador para o mundo. Um baú de memória se enche de algo que precisa esgueirar-se pelas palavras: a Poesia."


NOVA GERAÇÃO
"é um continuum. Nosso corpo literário que se vai estendendo, e se distendendo. Formas diferentes de ver a mesma coisa, a mesma dor, a mesma exclusão, as novas formas de sonegar verdades e meias verdades. Uma nova linguagem e ritmo incitando a nossa consciência poética e política. Porque a nossa literatura, pela própria necessidade de se dizer e questionar o status quo; é política. Esses falares e vontades de se fazer uma literatura voltada para a nossa vida e a vida de todos os brasileiros continuam com essa juventude que brande essas palavras e livros desde a periferia até o centro. Nossa literatura vai se espichando até enrolar-se no mundo. Até abraçar-se ao mundo."

TENHO LIDO

"Eu fiquei afastado muitos anos do contato social literário de nossa comunidade. Por isso, faço leituras esporádicas dos nossos autores e autoras. Algumas pela internet, outras em antologias. Muita coisa pra ler e quase nenhum tempo. Li também esses jovens poetas Michel Yakini de Acorde um Verso, Sergio Ballouk de Enquanto o Tambor não Chama e Negraciosa de Sidney de Paula Oliveira, Akins Kinte, que li nos Cadernos Negros. Cito também, escritoras bem representativas no cenário, como minha velha amiga Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, a escritora Conceição Evaristo, Cidinha Da Silva, e outras tantas que trafegam com suas palavras no universo da literatura. As coisas estão acontecendo, e isso é muito importante para a nossa comunidade, tão desprovida de voz e vez."




MEMÓRIA DA NOITE REVISTADA E OUTROS POEMAS

"Significa um grande salto do muro do autoesquecimento em que eu estava mergulhado - embora escrevendo e atento à vida literária - neste tempo em que estamos. A vida é criação. Suar e criar. A literatura brasileira tem que ter nosso suor, e ainda, o nosso sangue contado, mesmo que em palavras roucas; pelo frio distanciamento que a História do nosso país nos relegou."

O também poeta Hélio Pinto Ferreira (in memorian), na ocasião da 1ª edição de Memória da Noite, imprimiu a seguinte apresentação:

"A leitura de “Memória da Noite” do poeta Abelardo Rodrigues, que me confiou os originais, foi para mim muito gratificante. Como o nauta que depois de navegar por longo tempo avista a terra e grita – “terra à vista”! – trazendo toda a marinhagem à proa, posso dizer: – eis um poeta!

(…) Trata-se de um poeta de drama interior, profundamente vinculado ao ser. Sua poesia retrata a frustração do homem de cor, sua luta, seu sofrimento no contexto de uma sociedade que o repele.

 Sofrimento que lhe traz à tona o grito de uma poesia, digamos participante, cuja filiação sem qualquer influência nociva está em Arlindo Barbeitos e Agostinho Neto, dois altos valores da poesia africana em língua portuguesa.

Poeta voltado para as contundentes realidades do preconceito da cor, sua poesia é látego, um chicote na noite escura que abre luz em nosso intelecto…

O bom poeta realiza a sua poesia de maneira pessoal. Abelardo Rodrigues realizou a dele numa forma que mais sugere do que diz, num tecido de palavras em que se escuta o grito do homem de cor.
Leiamos, pois, os poemas de Abelardo."




Bibliografia de Abelardo Rodrigues


Memória da Noite – Ed. do autor, São José dos Campos.1978.Participação em antologias
Cadernos Negros 2. São Paulo: Ed. dos Autores, 1979; Cadernos Negros 3. São Paulo: Ed. Dos Autores, 1980; Axé – Antologia da poesia negra contemporânea – org. Paulo Colina. São Paulo, Global Editora 1982; A Razão da Chama – Antologia de Poetas Negros Brasileiros – org. Oswaldo de Camargo. São Paulo:GRD,1986; Seminários de Literatura Brasileira – 3 ª Bienal Nestlé de Literatura – org. Leo Gibson Ribeiro, São Paulo: Bienal Nestlé de Literatura, 1986; O Negro Escrito – Apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira – Oswaldo de Camargo. São Paulo: Edição da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo,1987; Cadernos Negros – Melhores Poemas – Márcio Barbosa/Esmeralda Ribeiro (org). São Paulo: Quilombhoje, 1998; Poesia Negra Brasileira – Zilá Bernd. Porto Alegre: AGE, 1992. Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, vol. 3. – Eduardo de Assis Duarte (org). Belo Horizonte: EditoraUFMG, 2011.Publicações no Exterior
Callallo – Revista – norte-americana, 1980 vol 3; Caribe (A quarterly magazine) – Editor: Marta Moreno Vega/New York State Council on the Arts and the Nacional Endowment for the Arts, N.Y. (EUA), 1980; Ika – Zeitschriftfur Kulturaustausch und internationale Solidaritat, n.25: Stuttgard (R.F.A.),1984; Schwarze Prosa – Org.Moema Parente Augel – Edition Diá – Alemanha, 1988; Schwarze Poesie Poesia Negra (edição bilingue alemão/português) – org. Moema P. Augel – St.Gallen/Köln: Edition Diá, 1988; The Black Scholar – Word Within a Word, vol 19: N.Y. (EUA), 1988  


Coordenação Editorial – Marciano Ventura
Revisão: Camila Omena e Taís Lopes
Revisão Final: Oswaldo de Camargo
Capa: Edson Ikê
Edição e Produção: Ciclo Contínuo, Produtora Axé, Sarau Elo da Corrente, Coletivo Esperança Garcia, Coletivo Perifatividade e 5º Elemento.
Apoio para o lançamento: Ação Educativa




Lançamento: Memória da Noite, revisitada & outros poemas
Dia 10 de maio, sexta-feira, às 19h
Local: Ação Educativa – Rua General Jardim, 660, Vila Buarque-Centro, São Paulo
Entrada Franca

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